Kill Bill (2003)

Após uma surpreendente estréia como diretor do filme “Cães de Aluguel”, e após o marco na história do cinema que fez com “Pulp Fiction: Tempo de Violência”, um dos diretores mais importantes do cinema agora nos apresenta uma importantíssima obra, que mais uma vez dispensa todos os padrões convencionais do cinema; Ele ofusca diversos diretores de Hollywood, por sempre fazer obras alternativas, e fugindo ao “cinema enlatado” de Hollywood; E sempre, literalmente sempre, eles dão certo. A película em questão denomina-se “Kill Bill”, que sem dúvida é um dos mais amplos, valiosos e significativos trabalhos da filmografia de peso que Quentin carrega consigo. É necessário salientar que o longa foi escrito e dirigido com maestria por Tarantino, que em ambos os aspectos se destaca.
Sempre ignorando o convencional, Quentin Tarantino nos oferece um entretenimento alternativo que descarta o “cinema enlatado” de Hollywood e tenta nos passar ao máximo, a essência de toda a idéia e intenção do projeto; Por tanto, não serão poupadas imagens sanguinárias, não será poupado o infalível e divertidíssimo humor-negro que Tarantino implanta em seus filmes, assim como falas marcantes, lutas sensacionais, belíssimos cenários e a fusão de diversas culturas e ícones num só lugar.
Pode ser até curioso, porém, a origem de “Kill Bill” é em partes geográfica. Tarantino passou sua juventude em South Bay (onde no seu filme anterior “Jackie Brown” mostra alguns encantos da região), e lá, havia “Grind Houses” (Curiosamente, o nome do seu próximo longa com Robert Rodriguez), que eram cinemas decadentes que exibiam filmes que retratavam o cotidiano dos negros que viviam em guetos nas grandes cidades dos E.U.A, e filmes de Kung Fu. O diretor comenta também que admirava as séries “ Kung Fu” que contava com David Carradine (o grande vilão desse filme) e “Shadow Warriors” com Sony Chiba, que também representa em Kill Bill o lendário Hattori Hanzo. A influência asiática também é fortíssima, pois diversos personagens que compunham outras obras japonesas, como “O monge das sobrancelhas brancas, ou simplesmente “Pai Mei” (que aparece no volume 2)” e também todos os demais citados como Hatorri Hanzo. Esses foram importantíssimos fatores para a posterior criação de Kill Bill.
A história fala sobre “A Noiva”, que após ser violentada e quase morta pelo seu ex-chefe/ex-amante Bill (David Carradine) juntamente com seus ex-colegas de trabalho, entra em um coma profundo de quatro anos e acorda sedenta de vingança por inclusive ter supostamente perdido o filho que estava esperando. Então, somos enviados a magnífica mente humana olhada através da esplêndida visão de Tarantino que descreve aos poucos cada personagem da trama e os encaixa da forma correta, fortalecendo assim a mesma.
Contando com ótimas atuações, vide a magnífica Uma Thurman que interpreta a inesquecível personagem, o filme se fortalece aos poucos e gradualmente ganha seu devido valor. Lucy Liu que interpreta a metade Japonesa, metade Inglesa, sino-Americana O-Ren Ishii, se mostra uma competente atriz e cria uma vilã muito efetiva e destemida que de certa forma sentimos falta na seqüência desse filme; Mas inquestionavelmente, Uma é realmente um dos maiores destaque do filme, e mostra uma competência extraordinária por ter estudado e aprendido tanto para interpretar a “super-heroína” Beatrix Kiddo.
Na parte técnica, a qualidade é visível e os importantes detalhes também. Algo que me obriga a comparar Tarantino com Stanley Kubrick é sobre o contraste e extravagância das cores em um ambiente; Foi visível em “2001” e em “Laranja Mecânica” que Kubrick gostava de cores fortes e cativantes, e Tarantino segue o mesmo caminho em Kill Bill por sempre exagerar (o que aqui funciona perfeitamente bem) nas cores e tons. Os efeitos sonoros são bons, e as lutas são maravilhosas e bem coreografadas; O seu nível de realidade (se Tarantino não quisesse extravagar tanto) é muito bom. Contamos também com uma ótima edição e transposição de outras culturas com tudo que temos direito (desde lendas a armas). O atrevido e alternativo roteiro também têm seu espaço garantido, e permite a nós uma intimidade enorme com o longa.
Outra coisa que se faz necessário comentar, é que este filme ou se odeia, ou se ama. Quem consegue ultrapassar os limites medianos imposto por diversas obras Hollywoodianas (obvio que existem diversas exceções), e curte o cinema alternativo com coisas extravagantes e muito diferentes, vai curtir Kill Bill. Quem não gosta vai odiá-lo até o fim de seus dias, achar antiquado e mentiroso demais. Outro detalhe que fortalece muito esse fato e justifica tudo isso, são as inúmeras homenagens que Tarantino faz a seus ícones, e põe no filme cortes abruptos, imagem preto e branco, lendas Japonesas, animações Japonesas e muitas coisas que algumas pessoas simplesmente não admiram e não concedem a devida importância.
A trilha sonora do filme é totalmente fora do comum, seguindo assim o ritmo do filme, mas embala com deslocadas canções e conseguem empolgar e distrair. Aliás, Tarantino revelou que em diversas cenas do filme ele escolheu as músicas antes mesmo de escrever os roteiros; Podemos notar na trilha uma parte de Luis Bacalov que é usada na cena em anime na morte do pai de O-Ren; Da Twisted Neve que é usada na cena do hospital; Battles without honor or humanity, que é usada na gradual entrada de O-ren e sua gangue; E no geral, diversas músicas dos anos 70. Podemos observar também, a perfeita fotografia, explorando bem os deslumbrantes cenários (como na luta de O-Ren e Beatrix embalada com uma ótima e adequada canção), ou na luta dela com os 88 loucos, fazendo assim um filme visivelmente impecável.
A direção de Quentin é extremamente precisa e transforma em imagens seqüenciais, toda a idéia e história pertencente á ele, e particularmente são admirável diretores que escrevem suas próprias obras e conseguem transformar aquele pensamento em realidade; E é visível que Tarantino realizou essa obra exclusivamente com fins pessoais, para conquistar a sua meta de realização, pois como já foi dito, Quentin não é de maneira alguma um diretor que preza pela publicidade, mas sim pela qualidade de suas obras; Talvez essa seja a fórmula do seu repentino sucesso.
E como já foi dito diversas vezes, esse é um dos melhores filmes de Quentin e um dos mais destacáveis já feitos. Depois de uma grande experiência armazenada, Quentin utiliza-se de todo o seu poder de “fazer cinema” e capta e transmite perfeitamente as emoções e profundidade de cada cena, fazendo de cada frame simplesmente perfeitos e únicos. É um tipo de quebra-cabeças que temos prazer em montar, e representa um dos bons sentidos da sétima arte. Um feito mais que considerável. Indispensável para quem gosta de cinema. Um entretenimento alternativo. Uma obra única e dificilmente esquecível; A transposição perfeita de diversos significados para a sétima arte.
Cotação: (10/10) \o/
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