Babel

 

A cada minuto que passa, podemos observar mais profundamente o quanto o mundo é pequeno. Porém, ainda é difícil a compreensão total das dimensões do formigueiro humano (!) no qual vivemos. E mesmo que atualmente haja tantos meios de comunicação, raramente a realidade é exposta de forma tão certeira como essa. Scorcese que me perdoe, e mesmo achando que o seu currículo cinematográfico foi injustiçado pela mais-que-ridícula academia de artes cinematográficas, ela novamente comete uma barbaridade ao conceder o Oscar que era de inegavelmente de Babel, aos agora famosos “Infiltrados”. Perdoe-os pai, eles não sabem o que fazem; talvez esse foi o ano que a academia tirou para se redimir do seu passado/presente negro e ignorante; concederam estatuetas ao maravilhoso compositor Ennio Morricone e a Scorcese pelo seu filme. O prêmio concedido a Ennio, foi honorário, e o de Scorcese foi parcialmente merecido, visto que tinha um concorrente que lhe merecia ter roubado o posto.

Particularmente, admirei muito o trabalho de Scorcese no geral em “Os Infiltrados”; bem montado, bem bolado, uma direção magnífica, boas atuações… mas a nível de raio de alcance, e de maior relevância, sem dúvida alguma “Babel”, a realística e inconveniente obra-prima de Alejandro González-Iñárritu se destaca e muito dos demais filmes ordinários, e mesmo que seja por pouco, é melhor que o grande ganhador da noite do Oscar no início desse ano. E assim como “Crash” saiu ganhador do ano passado, o trono esse ano, seria de “Babel”, mas talvez a academia não estivesse com vontade de eleger pelo terceiro ano consecutivo um drama, sendo que dois deles tratavam basicamente do mesmo tema, sendo de certa forma, meio-irmãos.

Um ônibus repleto de turistas atravessa uma região montanhosa do Marrocos. Entre os viajantes estão Richard (Brad Pitt) e Susan (Cate Blanchett), um casal de americanos. Ali perto, os meninos Ahmed e Youssef manejam um rifle que seu pai lhes deu para proteger a pequena criação de cabras da família. Um tiro atinge o ônibus, ferindo Susan. A partir daí, o filme mostra como esse fato afeta a vida de pessoas em vários pontos diferentes do mundo, que são interligadas de forma mágica, e ao mesmo tempo, mostra os males da globalização, e de quais diferentes formas ela interfere na vida de cada personagem envolvido na trama, que mostra paralelo a essa situação, a vida de Chieko, um deficiente auditiva que passa por muitos preconceitos e tem diversos conflitos internos. E acompanhamos em terceiro plano, a história dos filhos de Susan e Richard, que são levados ao México por sua babá, e acabam fugindo com ela pela fronteira, o que traz grandes riscos às suas vidas.

O roteiro de “Babel” é humano, e extremamente realístico. Praticamente impecável, onde somos apresentados a situações aparentemente inacreditáveis, mais todas extremamente reais. Ele consegue explorar e extrair de cada personagem, os efeitos nocivos que o mundo atual oferece; seja pelo preconceito, pela exclusão social, pela falta de comunicação, ou pela causa disso tudo: A corrosiva, delimitadora e inevitável globalização. Aliás, o próprio título remete a idéia da incomunicabilidade. Poucas vezes, um assunto tão delicado como esse, é tratado de forma tão fiel e gritante, que força uma linha de comparação com o título do aclamado documentário do pretensioso Al Gore: “Uma Verdade Inconveniente”, entretanto necessária.

A junção do maravilhoso roteiro, com a competente direção de Iñárritu, traz à tona diversas críticas ao mundo atual, como a brilhante e ágil cena que mostra na televisão de forma tão morna, a difícil situação vivida por Susan e Richard, que podemos acompanhar ao longo do filme; deliciosamente inteligente a forma que mostra como as situações e informações chagam tão maquiadas e distorcidas a nós. E felizmente, esse equilíbrio entre direção/roteiro, traz um produto final quase perfeito em relação a sua parte técnica.

Entretanto, a direção de Iñárritu por si só, é muito boa, e com uma câmera ágil, consegue transmitir o clima de cada cena, e transportar o espectador para ela; vide a cena na qual um grupo de amigos japoneses entra na boate, e tantas luzes e tantas pessoas, parecem invadir a sala onde está sendo exibido o filme. Outro ponto interessante, é que mostra por diversas óticas, como diferentes pessoas vêem o mundo, como em algumas cenas onde a brilhante personagem surda/muda Chieko, nos concede uma oportunidade de observar algumas coisas como uma mero e atribulado turbilhão de luzes e indivíduos. Mas a mágica do filme, está mesmo nos momentos; a cena na qual a personagem de Cate Blanchett leva um tiro no ônibus, é sufocante, que conta com uma câmera ágil do diretor, ou na qual ela tem que levar pontos no lugar do ferimento. Também podemos comentar toda a seqüência do deserto, que sem dúvida arranca suspiros de desespero do espectador, que se vê na mesma situação que os personagens; destaque para o momento em que Amélia deixa as crianças sozinhas e vai embora; impossível não conseguir ficar indiferente aos sentimentos vividos pelo menino, que se vê perdido, só e amedrontado pelo seu provável fim, como se a medida que ela se distanciasse a esperança também. E é claro o belíssimo fim do filme, em que a personagem Chieko despida encontra-se com seu pai na varanda de sua casa, na cobertura do edifício, e a câmera se distancia e mostra a beleza de Tóquio, ou até mesmo, como nos somos pequeno diante do mundo.

As atuações são um dos pontos fortíssimos do filme , e podemos observar que Alejandro também é um grande diretor de atores. Cate Blanchett como sempre, está ótima, e consegue transmitir todo o preconceito e desespero de sua personagem. Brad Pitt também se esforça muito, e mostra constantemente o quanto humano o seu personagem é; destaque para a tocante cena na qual ele telefona para os filhos, que após vivenciarmos toda aquela ordem não cronológica do longa, aquele momento faz um enorme sentido. Sobre hipótese alguma posso deixar de comentar sobre a revelação Rinko Kikuchi que vive Chieko, e se ela realmente é muda eu não sei, mas poucas vezes no cinema alguém conseguiu interpretar tão bem, sem falar ao menos uma palavra; talvez ela seja a melhor e mais difícil personagem do filme. Também podemos contar com a ótima atuação de Adriana Barraza, que vive a ignorante babá Amélia que provoca estranhos sentimentos de culpa no espectador. Os demais atores estão muito bem, mesmo com personagens tão “perdidos” como o de Gael García Bernal. Mas é de convir que todo o elenco está perfeito, e interagem com um equilíbrio inquestionável; verdadeiras pérolas.

É necessário comentar a única categoria agraciada com um Oscar, que foi a de “Melhor Trilha Sonora”. A maravilhosa trilha do filme encaixa-se perfeitamente em sua atmosfera, e com instrumentos dedilhados, típicos da região Marroquina e outros demais utilizados, a trilha sonora alterna entre o sofrível e o divertido, e completa magicamente os momentos diversos apresentados no filme. Definitivamente, Gustavo Santaolalla se mostrou competente ao ponto de acompanhar todo o clima tenso, ou saber alternar entre os estilos perfeitamente, com pouco barulho, mas algo sutil que não força demais e não pretende direcionar a atenção para si.

Quando se começa a falar sobre o quase interminável universo apresentado em “Babel”, é difícil terminar. Uma visão ampla, real e profunda sobre o mundo atual. O choque cultural e as conseqüências de um mundo globalizado são expressos de forma praticamente irretocável e incontestável. Politicamente correto e ao mesmo tempo meio alternativo, o filme consegue conciliar tudo o que existe nele de forma perfeita, e acha o equilíbrio com precisão milimétrica obtendo um êxito plausível. Mundo pequeno esse hein? Essa pergunta torna-se dotada de uma melhor compreensão ao final da exibição do filme. Vivemos todos tão distantes, e ao mesmo tempo tão perto, compartilhando culturas e vivências, evidenciando os diversos mundos existentes no nosso mundo. Vivendo como desconhecidos, mas entrelaçados por uma ligação que Iñárritu sempre tentou representar em sua trilogia, mas que nem mesmo o mais inteligente dos sociólogos seria capaz de definir por completo.

Coação: 9.0/10
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