Donas de casa, temei!

Com toda a polêmica gerada por “Avenida Brasil”, o autor João Emanuel Carneiro volta ao centro das discussões. Idealizador de projetos mais leves como “Cobras & Lagartos” e “Da Cor do Pecado”, onde ambos faziam parte da grade de programação da faixa das 19h, o autor sempre foi marcado por seu texto amarrado, personagens carismáticos, núcleos da trama que dialogam diretamente com a realidade da sociedade brasileira, e sempre com vilãs mulheres, loiras, belas e diabólicas.

No período 2008-2009 o autor escreveu “A Favorita”, marcando sua estréia no horário nobre da Rede Globo. A novela começava 18 anos após um crime que envolvia as duas personagens principais (Flora e Donatella), onde Flora finalmente via a luz do dia longe das grades da prisão. Trabalhando sempre o texto de maneira dúbia, João Emanuel Carneiro veio subvertendo a forma de se configurar as vilãs e mocinhas na tv brasileira, sempre confundindo o espectador sobre qual os verdadeiros valores que permeavam cada uma dessas.

Após alguns meses de exibição, a audiência foi apresentada a um twist point (também conhecido como “ponto de virada”), que é quando ocorre um determinado fato ou revelação que modifica completamente a trama. Nesse episódio ele revelava Flora como a verdadeira vilã da história, e a partir dali o espectador ficou completamente desnorteado sobre o futuro do folhetim; sobre essa reviravolta, era possível notar elementos da trama que levavam à essa conclusão, inclusive a própria abertura, que indicava exatamente a ordem dos acontecimentos. (notem as cores, a dualidade entre preto e branco, as divisões de tela…)

Por fim, vamos ao que interessa. Vejamos a cena a seguir, e depois os comentários:

1. Lembro bem de quando li uma notícia sobre esse capítulo: “Flora mata Dr. Gonçalo de susto”. Era exatamente isso que estava escrito. Pensei: “Que ridículo!”. Mas é aí que me deparo com esse nível de excelência televisiva, vindo de uma ideia que, se mal trabalhada, poderia se tornar risível. Mas foi exatamente isso: O velho morreu de susto. E foi bárbaro.
2. Acho que o maior terror é aquele que foge do racional, do entendimento humano. O maior terror é aquele do desconhecido. A forma como a cena se desenvolve, de modo gradual, com um texto não muito expositivo mas ao mesmo tempo auto-explicativo. É quando o audiovisual dá a liberdade do próprio espectador criar o cenário descrito pela personagem.
3. Gosto da fotografia da cena. Pouquíssima luz (na verdade somente a luz azul na mão da Flora), a vilã com uma camisola branca completamente banhada em sangue. A grande locação pouco iluminada também deforma a localização espacial. É o que eu falei do terror da desorientação. +1.
4. Logo no final, o personagem Gonçalo agarra em uma cortina e a mesma cede e cai juntamente com ele. Notei uma pequena referência Hitchcockiana, lembrando a famosa cena do chuveiro em Psicose. Não à toa João Emanuel Carneiro já se revelou um grande fã de Alfred Hitchcock, e isso pode ser notado em detalhes em suas trama, por exemplo. (musas/vilãs loiras?)
5. Palmas para esse texto. Claro que muito vai da interpretação da fabulosa Patrícia Pillar, mas as falas da personagem são carregadas de um sarcasmo e loucura. A cena conta com muito timing, com as pausas necessárias para o desenvolvimento correto. Os sons corretos, os movimentos de câmera… (ponto para o excelente Ricardo Waddington, diretor que é habitual colaborador de J.E.C.)
6. A imagem de flora com a luz incidente, o belo rosto da Patrícia Pillar em close-up, o enquadramento do corpo de Gonçalo e de Flora o observando como um abutre, a câmera invertida no rosto da vilã – mostrando, talvez, sua visão particular de mundo, a risada ao final – que é o ponto exato do ápice de sua vilania. O tango… Música tantas vezes associada à paixão, a dor, a duelo. E assim se fecha a cena.

Lembro que no dia seguinte à exibição do capítulo. Foi feita uma pesquisa de audiência e a recepção foi bem ruim. Pessoas mudaram de canal, pessoas desligaram a televisão, pessoas ameaçaram abandonar a novela. Os espectadores brasileiros definitivamente não estão prontos. Na cultura do país ainda se preza por personagens carismáticos que lançam moda e bordões. Algo semelhante vem acontecendo com “Avenida Brasil”. Talvez mais pra frente eu comente sobre essa última, mas até então, espero que João Emanuel Carneiro continue fazendo esse mesmo trabalho espetacular, ofertando ao público brasileiro o melhor que o formato de telenovela pode oferecer.

“É… Gente velho é um perigo… Morre por qualquer coisinha…”

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