Produto de exportação.

Antes de mais nada, queria deixar algo bem claro: eu não sou noveleiro. Ainda sou adepto do velho, novo e bom cinema; contudo isso não me anula de observar os demais outros meios que me cercam. No Brasil, o cinema vem ganhando uma força gradativamente e conquistando todo o exterior. Vimos isso em “Cidade de Deus”, que embalou Meirelles para sua carreira internacional e em “Central do Brasil” que foi um grande estopim. Se tratando também de qualidade, procuro poupar as toneladas de elogios que posso tecer a respeito de “Romance”, “Lisbela e o Prisioneiro”, “Tropa de Elite” ou de diversas outras obras nacionais.
No aspecto da literatura, ainda temos em nosso acervo grandes nomes como Machado de Assis, Jorge Amado, Clarisse Lispector, Vinícius de Morais, Carlos Drummond de Andrade e mais uma variedade de gênios. Na música, podemos nos orgulhar de Chico Buarque, Tom Jobim, Elis Regina, Cássia Eller, Caetano Veloso, Cazuza, Djavan, Marisa Monte, Maria Bethânia e infinitas reticências. Mas agora partindo de fato para o tema proposto, pretendo fazer uma rápida análise sobre uma grande paixão brasileira; não, não é o futebol, mas sim a tão subestimada novela.
Novelas tendem a ser clichê. E são em verdade. As histórias funcionam sempre como projeções de outras, e tudo isso compreende-se num ciclo vicioso. Às vezes apelam para o pieguismo, para a transformação do homem num produto, para a mesmice e titubeiam durante quase um ano para contar uma história que talvez pudesse ser contada em duas horas, como somos acostumados a discutir aqui. Tá bom, essa é a base do argumento crítico de muitos – ou todos – aqueles que analisam as telenovelas. E em partes, não estão errados mesmo. Mas procuremos observá-las por outra ótica.
Nós vemos em grandes obras cinematográficas o quanto as mesmas nos encantam e conduzem para uma eterna viagem somente com poucas horas de duração. Lindo. Poético. Contudo, se essa determinada obra fosse cem vezes maior, será que ela iria conseguir manter essa homogeneidade de qualidade, ou iria tornar-se irregular? Com novelas acontece algo semelhante. Elas têm seus altos e baixos, tramas secundárias mal desenvolvidas ou até uma má exploração psicológica da maioria dos personagens. Mas você já pensou o quanto é difícil encontrar todo santo dia um novo clímax para provocar o espectador a assisti-la no dia posterior?
Eu tenho procurado observar as telenovelas com outra ótica há algum tempo. Talvez com uma ótica um tanto cinematográfica. As obras mais recentes fazem o maior esforço para sugar o que podem do cinema. Não só referências em falas, mas na estrutura estética mesmo. Elas estão tentando livrar-se do convencional – mas ao mesmo tempo obrigadas a compactuar com o mesmo – arriscando uma câmera mais fluente, tremida, viva; tramas mais complexas, planos geniais e exposição de maneira inteligente algumas situações.
Como exemplo palpável, na atual novela das oito da Rede Globo, “A Favorita” de João Emanuel Carneiro e direção geral de Ricardo Waddington, podemos observar os aspectos anteriormente citados. A obra me chamou atenção logo no primeiro capítulo, onde a seqüência inicial mostra uma dualidade entre as personagens Flora (Patrícia Pillar) e Donatela (Cláudia Raia), numa cena banhada ao som de um belíssimo tango – criado especialmente para a novela -, e contrastando a realidade de ambas as personagens. Daí, temos lances interessantes aqui e ali, interpretações e atitudes dúbias até quando, num ato extremo de ousadia e coragem (com direito a extremismos), a novela muda completamente de foco, revelando bombasticamente quem é a real assassina da trama.
E depois de alguns momentos de reviravolta, novamente a trama cai no velho conceito da mesmice. Gafes aqui e acolá, clichês e melancolia, até quando ela vai investindo no que a fez diferente: A personagem principal (?) e vilã da novela, Flora, vivida por Patrícia Pillar. Eu não sei como elogiar mais a atuação dessa mulher. Ela mostra extrema competência nos momentos de lidar com as diversas extensões de sua personagem. Ora boa, ora ordinária, com a capacidade de duelar com suas diversas personalidades de maneira equilibrada e alterná-las tão fluentemente, que a torna crível o bastante para idolatrá-la. O olhar, a expressão fácil, o tom de voz… Oscar! Globo de Ouro! Ao mesmo tempo, o autor cria situações realmente interessantes, utilizando-se sabiamente dos personagens secundários e exigindo de toda a equipe de atores um trabalho mais dedicado.
Enquanto novamente podemos observar toda essa trama como uma reciclagem de outras, podemos também, numa opinião bem particular, imaginar o quanto as novelas são responsáveis pela introdução dos espectadores no mundo cinematográfico – seja pela sua qualidade ou falta dela -, onde essa massa acostuma-se gradativamente com situações mais complexas e uma trama mais ousada, além do reconhecimento de boas atuações – como reações imaturas do público com atrizes como Patrícia Pillar e Aline Morais, que acabam por confundir o personagem com o ator.
E por mais que sejamos inconformados com a preocupação das emissoras com o retorno econômico – conseqüentemente moldando a trama aos padrões da sociedade -, podemos ver isso tudo com proporções muito maiores em Hollywood. Portanto, o vão entre cinema e telenovela talvez seja muito menor do que se esperava. Provavelmente porque um seja derivado do outro – não necessariamente nessa ordem -, ou porque de alguma forma, assemelham-se em seus propósitos.
É interessante que nos permitimos observar esse meio comunicativo com outros olhos. Não como alguém que acredita que aquilo foi feito para a mãe ou para a avó, mas que vê na novela uma responsável não só por denunciar temas de extrema relevância na sociedade atual (há quem classifique como alienação), mas como uma forma acessível e popular de introdução na arte de um mero componente da massa. Vamos deixar o orgulho e a hipocrisia de lado e assumir o quanto tudo isso é importante para o Brasil e constitui sim um dos grandes tesouros nacionais, junto com o cinema, música e literatura. E raciocinando melhor, eu mantenho minha postura de não-noveleiro, mas não nego que sou um observador de primeira, e que lá no fundo curto todo esse programa. E sei que bem lá no fundo, quem leu até aqui, também é.

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